Voltei
Voltando
Eu vou ali e volto já
Recomeço
Foram palavras que muito utilizei no último ano. Muitas
promessas, nem sempre realizadas. Foram dias, às vezes meses, sem conseguir
deixar esta casa pronta para receber vocês.
Mas hoje é um dia datado em meu coração. E resolvi que era
chegada a hora de dar explicações. Nunca pretendi ser fonte de inspiração ou
modelo para alguém. Porém, um sinal de alerta sempre deve ser transmitido. É informação
que pode ajudar alguém.
E deixa eu contar esta história desde o início para que
vocês entendam melhor.
Em outubro do ano passado resolvi fazer um check-up, apesar
do último ter sido realizado apenas há 6 meses. Tinha ido ao ginecologista, que
pediu, além dos exames de rotina, uns exames cardíacos e estava tudo certo.
Aos 63 anos, nunca precisei tomar remédios de uso contínuo e até mesmo a
menopausa não deixou vestígios em minha vida.
Mas comecei a sentir umas dores nas costas. Sempre havia uma
desculpa: viajei durante horas, usei muito tempo o computador, dormi mal....
etc.etc. Desta vez procurei um clinico geral que na primeira consulta não
encontrou nada que justificasse estas dores e pediu exames. Muitos exames, até
mesmo alguns que eu não conhecia e outros que havia feito somente quando era
criança. Quando levei os resultados, dois chamaram a sua atenção: o exame de
fezes com sangue oculto e o CEA indicavam um problema.
Não conhecia o CEA. Por ter um histórico de câncer ginecológico
na família, eu sempre incluí o CA 125 nos exames de rotina.
Um esclarecimento sobre estes exames. Não são
diagnósticos e sim marcadores. E eles são feitos com uma análise do sangue do
paciente.
CA 125 - exame avalia risco para câncer de ovário
CEA - marcador tumoral para câncer colo-retal, estômago,
pâncreas e mama
Estes marcadores podem se elevar em outras situações clínicas
e é preciso realizar exames que confirmem o diagnóstico.
Juntando o lé com o cré, fui fazer uma colonoscopia que é o exame que permite ao
médico analisar o revestimento interno do intestino. E veio a confirmação do
diagnóstico: câncer no intestino.
Assim, em 3 de novembro de 2014 fiz a minha cirurgia no intestino. Não
vale a pena descrever o que veio a seguir porque foram meses de tratamento quimioterápico, cinco procedimentos com anestesia geral e
hoje eu acredito que somente quem já passou por uma situação assim pode avaliar
como é doloroso e sofrido este tempo.
Alguém escreveu:
"Quando envelhecemos,
algumas coisas viram
sofrimento.
Outras, entendimento.
E outras, insuspeitadamente,
transformam-se em
contentamento".
Muito aprendi nestes tempos.
Contei para as pessoas mais próximas porque eu precisava da
sua energia positiva para caminhar. Poupei as que me amavam demais e não
mereciam sofrer porque já carregavam o fardo da idade e dos problemas. Mandei
para a “p q p” àqueles que não cuidavam de mim quando eu estava bem e eu resolvi
que não mereciam estar no mesmo quadrado meu. Fiquei mais leve.
Eu, que sempre quis a harmonia e o belo ao meu redor aprendi
a conviver com náuseas, vômitos, arroto, diarreia e PUM. Para
amenizar, fiz piadas com estes nojentos que passaram a fazer parte do meu dia a
dia. Tudo para não perder o encanto com a vida e o sorriso.
A cada exame percebia que um novo dia pode ser um contínuo
chegar de esperanças. Quietinha, no meu canto, concentrei todas as minhas
energias na minha recuperação.
Sofrer não estava nos meus planos. Chorei muito para lavar a
alma, para renovar as forças.
Lembra
das dores nas costas? Desapareceram após a primeira consulta com o clínico
geral e eu tenho a certeza de que eram as asas do meu anjo da guarda me
empurrando para buscar ajuda.
Rezei. Mas sem fazer trocas com Deus e não tenho promessas
para pagar. Confiei e deixei em Suas Mãos. Durante todo este tempo fiz um único
pedido: cuida de mim. E, se não posso ter uma bolsa Chanel, não permita que eu
ganhe uma bolsa de merda (colostomia).
Como Deus é
muito bom de serviço e sabe fazer tudo direitinho, hoje eu me sinto pronta para
contar a minha história. E lembrar a todos vocês que estes dois indicadores CEA
e CA125 devem fazer parte da nossa rotina de exames.
E se você quer saber como estou, posso dizer com toda a
sinceridade: eu estou muito bem. Sou uma pessoa abençoada e com uma única
missão: ser feliz.